terça-feira, 10 de julho de 2018

FIG: Galeria Galpão terá mostra de obras que retratam “vaginas”

Ao total, 45 peças serão exibidas. Proposta da mostra, é quebrar o tabu sobre o corpo feminino, 
segundo defende Ana Flávia Mendonça, artista responsável pela exposição. (Cultura/PE)

Por Marcus Iglesias, do Portal culturape.gov.br

Seja através dos materiais escolhidos ou até dentro do processo da liberdade criativa, a programação de Artes Visuais do 28º Festival de Inverno de Garanhuns dialoga diretamente com a diversidade de ideias. Este ano, a Casa Galeria Galpão irá reunir, de 21 a 28 de julho, cinco atrações que trazem importantes debates sobre a arte contemporânea na atualidade, através de performances, instalações ou exposições.

De acordo com Márcio Almeida, coordenador de Artes Visuais do Festival, “nos cinco selecionados para a grade artística a gente consegue perceber uma diversidade em relação ao suporte. Seja através do desenho, instalação sonora, peças de cerâmica ou performance, teremos várias possibilidades. Mais uma vez a Galeria Galpão traz reflexões muito pertinentes e atuais para o circuito da arte contemporânea”.

Segundo ele, um debate interessante que pode surgir é a partir do suporte escolhido pelos artistas Ana Flávia Mendonça (Vaginas-Flores) e Tonfil (Memorial de mãos sem memória). “A argila, o barro em si, sofre uma discriminação na arte contemporânea e é bom trazer o debate sobre esse material porque traz uma reflexão sobre a artesania. Este é um preconceito que existe dentro das Artes Visuais, mas que não é discutido, e a ideia é também trazer isso à tona”, reforça Márcio Almeida.
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Estudante de Artes Visuais da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Ana Flávia Mendonça participa da programação do Festival de Inverno de Garanhuns, com a sua mostra individual – que já esteve em exposição durante a 9ª edição do UNICO – Salão Universitário de Arte Contemporânea do SESC. “Em Pernambuco a gente tem esse festival, o UNICO, que é voltado pra produção universitária. No final do ano passado fui uma das premiadas pelo SESC, que levou minha exposição para passar um tempo na unidade de Casa Amarela, no Recife, e depois em Petrolina”, detalha a jovem artista.

“Quando expus na mostra do SESC, eu tinha 21 peças. Para o Festival de Inverno, irei levar 45 unidades. Espero ter um dia 100, 200, 500 vaginas. Quem sabe até fechar uma galeria com essa exposição”, sonha alto Ana Flávia, que conta que o projeto nasceu a partir de mulheres admiráveis que tinha por perto. “Seja uma avó ou uma professora, por exemplo, partiu da admiração por mulheres próximas. À medida em que a ideia foi crescendo, começaram a participar pessoas desconhecidas, e foi incrível essa troca. Também teve gente que viu a primeira versão da mostra e quis participar. Com o tempo perdi o controle disso, e passaram a me procurar bastante”, revela.

Para ela, a proposta da mostra é quebrar o tabu sobre o corpo feminino. “Que a gente possa discutir e falar sobre o assunto, trazer a tona a discussão sobre vaginas. E o retorno do processo de criação das peças foi algo muito interessante porque se revelaram coisas incríveis. A mostra tem um poder grande nas entrelinhas, através dos relatos, da voz feminina que ecoa, seja através dos preconceitos e abusos sofridos, ou através da cura. E o projeto tem também a intenção de engradecer a força da diversidade, exaltar a beleza da diferença. Quando a gente vê uma parede com várias vaginas, diversos detalhes, a força do conjunto passa uma mensagem que cada uma, com sua singularidade, faz parte de um universo muito bonito”, descreve Ana Flávia Mendonça.

Além das 45 peças, que retratam a vagina feminina numa comparação à espécies de flores, a exposição apresenta também os relatos das mulheres participantes. “Quando elas eram convidadas recebiam junto à carta de convite um espelhinho, que era para se olharem e se conhecerem ou reconhecerem. Foi um processo bem mágico. Os relatos de cada mulher estarão pendurados juntos aos espelhos de cada uma. Já as peças são feitas de cerâmica, e para elas utilizei barros e pastas de cores diferentes, na tentativa de encontrar as várias tonalidades do corpo humano – uns mais claros, intermediários e mais escuros”, pontua a artista.

          Exposição, conta também com espelhos utilizados pelas participantes
para se olharem, junto aos relatos emocionantes de cada uma. (Fotos: Divulgação).


PROGRAMAÇÃO DE ARTES VISUAIS DO 28º FIG

Galeria Galpão
De 21 a 28 de julho | 16h às 22h
Endereço: Av. Dantas Barreto, 120

EXPOSIÇÕES:
De 21 a 28 de julho | 16h às 22h

Agosto & Archeos - Thelmo Cristovam;
Instalação sonora imersiva composta por duas obras desenvolvidas e construídas com base em princípios e modelos matemáticos (Agosto) & matemáticos biológicos (Archeos) e em aspectos de bioacústica.

Memorial de mãos sem memória Tonfil;
100 mãos de cerâmica em estilo hiper-realista estarão dispostas no chão, como se brotassem, trazendo suas memórias da terra onde trabalharam e onde foram enterradas aludindo àqueles que não tiveram direito a imprimir suas próprias memórias pessoais na construção da vida em sociedade no nordeste do Brasil.

Meditação - França Bonzion;
Segunda exposição do artista, uma série de desenhos em caneta esferográfica e Kraft são o canal por onde escoam espontaneamente sentimentos, tensões e sonhos sobre temas relevantes de nossa contemporaneidade como: violência, repressão sexual e a pressão das instituições.

Vaginas-Flores - Ana Flávia Mendonça;
Partindo da semelhança estética entre a estrutura de uma vagina humana e a de uma orquídea da espécie Cattleya, a artista a partir de relatos de 45 mulheres desenvolveu o projeto que além de ressaltar a beleza dessa repetição estética da natureza, exalta a força da diversidade, assimetrias e peculiaridades da anatomia feminina.

PERFORMANCE:
Sábado, 28/7 (Praça da Palavra)

“Bombril” - Priscila Rezende;
Além de uma conhecida marca de produtos para limpeza e de uso doméstico, faz parte de uma extensa lista de apelidos pejorativos para se referir à uma característica do indivíduo negro, o cabelo. Em “Bombril” o corpo da artista se apropria da posição pejorativa a ele atribuída, transformando-se em imagem de confronto à fala discriminatória, presente no discurso de nossa sociedade.

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