sexta-feira, 28 de julho de 2017

40 mil pessoas cantaram os sucessos de Chico César no FIG

Chico: “Há poucos festivais que investem em coisas que não são exatamente o que a mídia, a partir do 
sudeste, indica e o resto segue, o FIG não é assim”. (Do Portal Cultura PE / Fotos: Fer Verícimo).

Quarenta mil pessoas cantaram em coro uníssono as músicas de Chico César, que encerrou o polo Mestre Dominguinhos nesta quinta-feira (27), com um show pulsante. O paraibano levou a turnê do disco “Estado de Poesia” para a oitava noite do 27º Festival de Inverno de Garanhuns, promovendo um dia plural de ritmos. Ao abrir a apresentação com “Caninana” e “Guru”, ambas do seu álbum mais recente, o compositor foi surpreendido pela plateia que repetia as letras do novo repertório. Apesar de ter participado de edições mais próximas do FIG, em projetos como a Orquestra Santa Massa, há 21 anos o paraibano não trazia o seu próprio show para o Festival.

“É muito diferente você vir com seu show autoral e mostrar o que você está fazendo de fato. Há poucos festivais que investem em coisas que não são exatamente o que a mídia, a partir do sudeste, indica e o resto segue, o FIG não é assim. Ele olha para o que está acontecendo e para quem já fez coisas interessantes, é um diálogo. Um artista poderia chegar e colocar coisas novas e o público reagir negativamente, mas não foi assim, pelo contrário, foi uma relação muito carinhosa e isso nos encorajou. A gente gosta de tocar as coisas antigas, mas também as novas, e fico feliz com a força da internet, porque mesmo que as músicas não toquem no rádio, as pessoas aprenderam cantá-las”, elogiou ele o público que se resistiu a chuva em plena quinta-feira.
.

Do disco novo ainda vieram outros títulos, como “A Palavra Mágica”, “Atravessa-me” e “Negão”, essa última abriu o debate para desmascarar o racismo disfarçado que ainda há no Brasil juntamente com a já clássica “Respeitem meus cabelos, brancos”. O show enérgico que explora diferentes texturas sonoras, indo das guitarras à percussão africana, desacelerou quando o cantor entoou sucessos como “Pensar em você” e “À primeira vista”, porém, o show se manteve quente pela participação ainda mais intensa da plateia que também cantava as canções em voz alta. A saideira com “Mama África” foi intercalada com a música “Brilho de Beleza”, contando com a participação do percussionista pernambucano Lucas dos Prazeres e reafirmando a força do negro frente às adversidades sociais, que provocou empatia entre o público que repetia o discurso libertador.

“Lucas é um irmão, quando o conheci ele era muito novo, alguém me disse que era o novo Naná (Vasconcelos), porque ele tem os ritmos nordestinos na veia e é muito importante o surgimento de novos artistas porque também causa uma inquietação e impede que os que chegaram antes se acomodem”, disse Chico, sobre a importância de abrir espaço para novos músicos. Outra atração paraibana que se apresentou na noite e chegou disposta a agradar pessoas de todos os gostos, foi a cantora Lucy Alves, cujas raízes ligadas ao forró foram incrementada por uma proposta mais pop.
.

A artista impressionou logo na abertura, com um batidão que se transformou em um  forró-rock de “Balão Dourado”, abrindo a sequência de releituras de forrós explosivos, como “Festa do Interior”. O show ainda atravessou o pé-de-serra de Luiz Gonzaga, com  músicas como “Paraíba” e “Sala de Reboco”,  o coco de Jackson do Pandeiro, com “Sebastiana”, o reggae de Bob Marley, com “Is this love”, a lambada do grupo Kaoma, com “Chorando se foi”, e também os forrós mais estilizados de Eliana, com “Amor ou Paixão” , e da banda Magníficos, com “Verdadeiro Amor”. A apresentação destacou não só a versatilidade da banda, que manteve o público aceso, como a da própria cantora, que tocou sanfona, violino e até guitarra baiana, durante o show.

“Amei fazer novela e, até mesmo no palco, eu me sinto outra artista. Eu acho que o artista é livre pra se reinventar, o meu show é tão elétrico, mas tem sempre uma sanfona ali, o meu sotaque, a minha roupagem”, observou ela, sobre a mudança estética recente. A dose de regionalismo tradicional da noite no palco Mestre Dominguinhos ficou por conta do projeto “Setenta com Sete”, em que os sanfoneiros Waldonys, Chambinho, Meninão, Adelson Viana, Agostinho do Acordeon, Mahatma e Terezinha do Acordeon prestaram uma homenagem aos 70 anos da canção “Asa Branca. “Esse show foi pra homenagear Luiz Gonzaga na terra do seu filho postiço, como ele chamava o Dominguinhos, ao lado de amigos, eu saio daqui deslumbrado, de alma lavada”, disse o cearense Waldonys, sobre a apresentação que provocou comoção entre o público garanhuense. A noite foi aberta pela artista da terra Mourinha do Forró, que foi responsável por esquentar a plateia para os arrasta-pés do palco.
.

Confira a programação do palco Mestre Dominguinhos
para esta sexta-feira, que destacará o samba:

20h – Kiara Ribeiro
21h – Grupo Terra
22h – Gerlane Lops
23h – Mariene de Castro
00h30 – Mart’nália

VAI DEIXAR SAUDADE: FIG 2017 chega ao seu último final de semana com shows de Mart’nália, Sandra de Sá e Fernanda Abreu

Programação, que se encerra neste sábado, foi considerada evolutiva e bem
articulada. (Com informações de Nathália Pereira / Jornal do Commercio).

A 27ª edição do Festival de Inverno de Garanhuns está acabando, mas nem por isso o final de semana será menos agitado na Cidade das Flores. Os polos Mestre Dominguinhos, Pop, Som Na Rural, Forró e Instrumental reúnem nomes locais e nacionais, prometendo uma boa variedade de ritmos e público, como tem acontecido desde o primeiro dia.

Hoje, sexta-feira, dia 28 de julho, a partir das 20h, a Praça Cultural Mestre Dominguinhos, onde fica o palco principal, terá uma noite dedicada ao centenário samba, defendido por seis artistas, a começar pela filha da terra, Kiara Ribeiro. Na sequência, se apresentam Grupo Terra, Gerlane Lops, Mariene de Castro e Mart’nália.

No espaço Pop, Alexandre Revoredo, Marsa, Tibério Azul e a paulista Mariana Aydar. Já o Som na Rural recebe o grupo Rabecado. Para os amantes da música instrumental, a pedida é conferir as performances de Street Jazz Band, Henrique Albino Trio,Renato Bandeira e o Som da Madeira, Noise Viola e Maestro Forró.

Amanhã, último dia de programação, Andrea Amorim, Jr. Black, Spok Frevo Orquestra, Zé Ricardo (RJ), com participação especial de Sandra de Sá, e Fernanda Abreu (RJ) integram a despedida do Mestre Dominguinhos. Hercinho Gouveia, Flaira Ferro, Simone Mazzer (PR) e Marina Lina (RJ), apresentando repertório do disco Três, chegam no palco pop. A Rural começa ainda pela manhã, a partir das 10h, com a Jornada MCs – Edição FIG. À noite, às 22h20, os Mamelungos apresentam as composições do mais recente trabalho, Esse é o Nosso Mundo (2016).

Os dois últimos dias de festa contam também com atrações nos palcos de Cultura Popular Ariano Suassuna e Forró, com maracatus, cirandas e shows como os de Azulinho, Flávio Leandro e As Severinas. O acesso a todas as apresentações do FIG 2017 é gratuito.
.

Noite dos camisas pretas fez tremer as estruturas do Palco Pop

Com os shows das bandas Alkymeia, Sinaya e Devotos, público se divertiu bastante 
com direito a várias rodas punks. (Do Portal Cultura PE / Fotos: Rodrigo Ramos).

O chão e as estruturas do Palco Pop vibraram nesta quinta-feira (27), noite dedicada aos camisas pretas amantes do metal e hardcore. Com direito a rodas punks e muita batida de cabeça, o público se divertiu com apresentações das bandas Alkymenia (Caruaru), Sinaya (SP) e de uma das mais importantes bandas do cenário underground e independente brasileiro, a Devotos, que segue em comemoração aos seus 20 anos do lançamento do disco “Agora Tá Valendo” (1997).

Formada por Cannibal (baixo e voz), Neilton Carvalho (guitarra) e Celo Brown (bateria), amigos da vizinhança do Alto José do Pinho, Devotos subiu ao palco com uma faixa com a hashtag #AmeDaniel, uma campanha para arrecadar fundos para o tratamento de uma criança de Olinda que nasceu com uma doença rara, a Atrofia Muscular Espinhal. “Eu sei que a situação do nosso país está complicada e que temos muitos problemas para resolver, mas preciso falar de uma coisa séria. Conheci de perto esse menino e a família dele está passando por uma luta imensa. E, hoje, faço um apelo para cada um aqui ajudar como puder”, disse Cannibal, para na sequência emendar com as músicas “Formando Opiniões”, “Dia Morto” e “Punk, Rock, Hardcore”.

“A gente pegou o repertório desse álbum, que teve uma repercussão muito grande na cena underground nacional daquela época. E foi bem legal trazer esse show aqui pro FIG, porque você toca pra pessoas de vários lugares. Eu gosto muito de Garanhuns por causa disso, vem muita gente diferente”, comemorou Cannibal. Foi uma noite de reencontros e participações especiais. De Maceió, o cantor Adriano Aranos, da banda Sinsinhor, cantou ao lado dos Devotos as canções “Asa Preta” e “Luz da Salvação”. Noutro momento, Clécio Veloso, de Garanhuns, também subiu ao palco.
.

A cena punk se articulou no mesmo momento da efervescência musical do movimento mangue da década de 90. Parceiro musical desta época, quando integrava a Chico Science e Nação Zumbi, o percussionista Gilmar Bola Oito está fazendo a apresentação do Palpo Pop e nunca imaginou que um dia chamaria a Devotos para começar um show. De cima do palco, se divertia como um adolescente quando vê sua banda favorita pela primeira vez. “Encerrar a noite dos camisas pretas com Devotos foi a cereja do bolo. Essa é uma banda que já toquei junto várias vezes pela periferia do Recife. Nunca imaginei que um dia fosse apresentar um show deles durante um festival tão importante como é o FIG. Os caras continuam jovens e bem atual com o hardcore na veia”, disse Gilmar.

A noite teve também a presença de palco dos metaleiros da Alkymenia, que já tocou no FIG na edição de 2013, numa noite dedicada aos camisas pretas na Praça Mestre Dominguinhos. “Neste dia, a gente se apresentou ao lado de artistas como Os Valvulados, daqui de Garanhuns, Desalma, do Recife, o Krisium e o Raimundos. Durante esses quatros anos aconteceram muitas coisas bacanas. A gente acabou participando muito da cena sul-sudeste, moramos em São Paulo durante um ano e meio, e foi uma experiência enriquecedora”, explicou o cantor e baixista Lalo Silva, que dedicou o show da banda aos grupos undergrounds de Garanhuns.
.

O repertório foi baseado principalmente no disco Strong and Unfailing As a Thunder (em livre tradução, Forte e Infalível como um Trovão), lançado este ano, conta com 13 músicas inéditas. “Neste álbum ,a gente fala dessa correria do povo nordestino, que, mesmo sofrendo, não desiste nunca, sempre forte como um trovão. Muita coisa mudou nesse disco novo também. Por exemplo, Dennis Kremier, baterista do grupo, tirou os tons e surdos de fábricas industriais do set do seu instrumento e substituiu por alfaias produzidas por João do Pife, um mestre da nossa terra”, explicou o baixista da banda.

Formada só por mulheres, a banda Sinaya se apresentou pela primeira vez no Nordeste, nesta quinta-feira (27). Quem estava na plateia para conferir de perto foi Ana Julia, moradora de Garanhuns, de 19 anos, que conheceu o grupo paulista através da programação do FIG 2017. “Quando a grade saiu, eu fui procurar saber mais sobre a banda na internet e pesquisei várias músicas. Assim que soube que era formada só por mulheres, fiquei ainda mais instigada com o projeto. Por isso, vim hoje ao Palco Pop. Gostei muito da apresentação delas e até pedi música”, disse ela.

Renata Petrele, guitarrista solo na Sinaya, encara com naturalidade o avanço da presença feminina no rock brasileiro, especialmente no metal. “Ainda existe uma preconceito velado de curiosidade. O pessoal vai ver o nosso show pra ver se de fato a gente toca. Mas isso era muito mais forte no começo da banda, hoje em dia a gente tem um público e a galera vai curtir nosso som. E existem outras bandas femininas que mostraram que este não é um som só pra homem. As mulheres estão tocando e a galera está curtindo bastante”, avalia Petrele, que ficou emocionada com a recepção e carinho do público. “O povo nordestino tem uma fama de ser muito acolhedor e isso é verdade. Aqui a turma do metal abraça mesmo a causa e foi bem legal ver as loucuras que o pessoal estava fazendo na plateia, bem empolgados. Queremos voltar outras vezes”, revelou.
.